sábado, 26 de março de 2011

1 X 0

Fiquei surpresa quando me disse que lia muito. Lia muito no trem, no ônibus, olhei de novo, meu infalível preconceito se assentou e eu nem me lembrei da tatuadora. O preconceito se assentou e de um só olhar e com algumas palavras já achava que sabia tudo. O estado, a classe, onde morava e o que fazia. Lendo, no ônibus, no trem, lia tanto que aqui estava, no hospital, esperando a operação e achava que era a leitura a culpada pelo estado de seus olhos. Só podia ser lendo a bíblia, me disse meu preconceito. Porém, mesmo sem me lembrar da mãe da motorista de ônibus, reagi, hesitei: "espera aí, talvez..." Estiquei meu braço para frente e tentei apalpar algo do outro lado da névoa que me cobria, nada. Conversa vai, conversa vem, descobri que ela era goiana e estava vivendo em Harlsden há cinco anos e trabalhava de... Tive que admitir, desta vez, perdi: um ponto para o preconceito.

desconexos

O cubano é louco - ou talvez não seja -
São os outros que não acreditam
Que o negro, apreciador de cocaína,
Possa ser um professional viajado.

Teu lugar

Se pudesse controlar o futuro,
Ser dona de minha própria memória e
Desembaraçar o efeito dos anos,
Não terias espaço nos arquivos
Repletos de cada momento querido,
Cada momento passado,
Com amantes, com amigos,
Nos ficheiros ordenados de minha mente.

Mas na pilha de coisas a descartar
Deixar-te tampouco conseguiria.
Reservar-te-ia um espaço no meu subconsciente,
Naquela caixa esquecida, em algum lugar, perdida
Cheia de retalhos, peças desconexas de vida,
Surpresas nem grandes, nem muito agradáveis,
Pequenos momentos de cor.
Aí te guardaria.

Primavera

As portas do café se abriram, entrou o sol,
e com ele os tipos que se encontram pelas ruas de Hackney
antes detidos pelas portas ilusoriamente trancadas.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Domingo na cidade

É um domingo,
Se nota mais ainda o vazio da cidade militarizada.
Carros negros com insígnias designando desativação de bombas,
Parados em ruas vazias repletas de bancos fechados.

De um emaranhado de ruas e avenidas, só uma é transitada.
A da ciclovia estabelecida onde os cidadãos saem a passear em suas bicicletas.
Ou aquelas dentro do cerco policial –
que também protege o Palácio Presidencial

Mais abaixo, o comércio de rua segue normalmente
Em barracas ou no chão,
Não distinguindo entre dias de descanso ou de agitação
Mendigos esperam à porta de caixas automáticas
Eles sabem que aí não podem ser negados.

No Café Francês onde os outros chegam de carro,
Uma conversa sigilosa entre uma moça, um jovem alemão e seu tradutor.
Algo que acontece nas Montanhas ao Oeste
e também uma menção do Caribe
A moça não quer ser ouvida.
Do que falam?
Prostituição? Guerrilha?
A conversa é baixa demais para meus ouvidos falhos.

Julia 08 de 2010

Na Sala São Paulo

Na Sala São Paulo

As bundas tocam o assento tocado por outras.

Bundas ricas são sempre bundas limpas.

Os colares, penteados,

As bolsas Luis Vuiton,

Ou talvez o branco

Dos tratamentos dentais

Dão o sinal,

Uma espécie de certificado,

100% desinfectadas, dizem.


Podem confiar,

Sentem-se sem perigo!

O preço da entrada é o mesmo do honorário da Ginecologista

Ou do Bundologista

(Qual é mesmo o médico que se especializa na limpeza da saída?)

Por isso, não poderiam deixar de ir,

No País da higiene pessoal.


Não filhinha, não,

Aqui, não é preciso!

Sente-se a vontade,

Muito Chanel N. 5,

Como se estivesse em casa...


Eu sei que te ensinei

Que quando no toilete do Shopping

Arregace as saias,

Exprima bem os músculos das coxas,

(O dinheiro gasto no treinador pessoal,

as horas naqueles exercícios especiais)

Use tamancos altos,

(Assim não molha ou arrasta as calças no chão)

Levante a bunda alguns centímetros

- quando não meio metro - do assento

(Nunca se sabe, as bactérias estão até no ar!)


O xixi vai molhar a tábua? E daí?

Vale a pena ser educada?

Se vê pelas roupas compradas no camelô,

pelas falsas Marcas,

Os germes nas calcinhas Marisa

- Como naqueles programas da National Geographic -

Nadando, se multiplicando,

No branco-não branco da tábua da privada.


Mas aqui, minha filha,

A música já é muito cara,

(se um tanto chata)

Portanto, não tenha medo,

não se acanhe,

Na Sala São Paulo da pra sentar!


Julia 08 de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Memórias

A menina pequena descia a serra e ficava olhando estas matas: de baixo para cima não se via nada, só floresta, montanha. Como é que estas matas poderiam esconder uma cidade tão grande? Lá encima, aquela imensidão armada em cimento e concreto, aqui, tudo permanecia tal qual o dia que os jesuítas chegaram: nada mais que floresta, areia, mangue, serra e mar. Se via algumas vilas, estradas de terra cortando aquele verde todo e também fortes lembrando caçadores de baleia. Dos índios sobravam os nomes dos rios, praias, plantas e animais.

A menina pequena olhava a praia vazia com as montanhas atrás e soletrava os nomes. De repente, na praia calma de nome indígena, eles apareciam, remando, abraçando os dois lados da baía - espíritos! Lá iam eles, veloz e silenciosamente, eram dez, talvez quinze canoas. Só o som de vozes e risas cortava o barulho da mata. Aqui no inverno, enquanto fazia frio serra acima, a temperatura era generosa como o mar que trazia às costas milhares de tainhas para serem pescadas e comidas, ou secas e conservadas para tempos piores. Aqui acampavam de passagem nas praias desertas, se adentravam nos mangues para caçar caranguejos. E a menina na praia solitária acariciava os grãos de areia, amava aquele mar verde e fecundo e aquelas florestas cheias de árvores, cada uma com o seu tempo para florescer - se no norte, mais frio, e nas montanhas, mais áridas, as flores se achavam no chão, aqui elas moravam nas árvores - roxas, brancas e amarelas, elas pintavam a mata de cores em épocas diferentes. A menina tocava a areia, as rochas, os troncos ásperos das árvores, queria beber a beleza do mar.

Cada ano vinha, mesmo que fosse por um dia, tinha que descer a serra para ver o verde ao lado do mar. Cada ano descia, cada ano era como se cortassem um pedaço seu com cada pedaço de mata que tinha dado lugar a casas de veraneio e hotéis deixando pelados os morros queimando ao sol. Já não podia imaginar os índios cruzando as baías, agora a grande metrópole, lá em cima, fazia sentir sua presença aqui em baixo. A menina cresceu.

A lembrança de um lugar não é só de uma pessoa, mas de muitas. É também dos milhares e milhões que descem a serra para veranear e, para muitos, os morros pelados sempre fizeram parte da paisagem, como os bares, as festas e as lembranças de amores de verão. Assim tinha que ser: uma grande metrópole necessita de seu pólo turístico. Agora para cá, a cada verão, se mudava a cidade, o estado inteiro, todos aqueles que não tinham mar. A cidade fechava – quase – e todos desciam para desfrutar de suas férias. As imagens de índios e jesuítas ficaram mais remotas, meras quimeras esfumaçando-se no ar e as praias adquiriam novas cores – as das areias manchadas pelo esgoto e pelo piche. As matas se distanciavam, os mangues trocados por favelas, nordestinos contratados para construir estradas e casas aqui ficavam para trabalhar como caseiros, jardineiros, seguranças ou domésticas. Entre mar, areia e montanha agora cortavam o contínuo natural boutiques e restaurantes exclusivos, mansões, ruas, e até favelas. Mas a menina entendeu que de alguma maneira estava certo. A privilegiada – a única com direito de apreciar aquele mundo? O país mudava, a classe média expandia, todos tinham o direito de vir a praia, banharem-se ao mar. Do interior do Mato Grosso, agora plantado com soja, onde iriam passar o verão, se não nestas praias adaptadas para seu conforto e diversão?